Eu sei, sei que o tempo é curto, que no cômputo cotidiano as horas que sobram são menores do que as gastas. Mas realmente sinto falta de pessoas com interesses interessantes.

Um de meus escritores favoritos, o jornalista João Antônio, além de fazer textos fenomenais, costumava fazer alguns cálculos. Humanos gastam: oito horas diárias trabalhando, três horas se locomovendo, duas horas se alimentando, duas horas com as necessidades básicas, mais oito horas dormindo (duvido!) e por aí vai.

Olha que ele não calculou o tempo gasto com idas ao banco, com ligações para atendentes de telemarketing e com o tal do Netflix. Não tenho certeza das atividades que compunham os cálculos do João, mas sempre que faço os meus próprios, com direito a reajustes de acordo com nossas novas tarefas do século 21, sobram umas 4 horinhas livres só.

Expus estes cálculos na cozinha de uma das empresas onde trabalhei e um funcionário que estava lá me questionou, perplexo: “ué, e 4 horas não está bom demais?!”. Está aí, certamente é uma pessoa com interesses desinteressantes, para espremer a própria vida assim, em espaço tão curto de tempo.

Porque quando largo o trabalho desejo ler um bocado de páginas de um bocado de livros, fazer alguma das várias danças que gosto, treinar alguma das línguas estrangeiras que um dia hei de aprender, cantar alguns sons dos anos 20 aos 2015 e (claaaaro!) beber algum álcool ao lado de amigos que têm interesses interessantes.

De preferência fazer uma poesia antes de dormir e, quem sabe, até uma oração? Entre as preces certamente constará o desejo que norteou as palavras todas desse texto: “Meu senhorzinho do céu, por favor. Esticai as horas que sobram. Aproximai-me das atividades e amigos que amo. Livrai-me daqueles que têm interesses desinteressantes. Amém”.

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